sábado, 19 de outubro de 2013

VIVER UM POUCO




Desde que se separou de Natália, Tomi Grainoi passou a carregar a morte em seu bolso como uma opção amiga, uma forma de consolo para seus erros e fracassos, ainda que ela não o tenha encontrado pelo coração partido. Ao contrário do que todos pensavam, romper o curto noivado não o tinha afetado. Sua dor era mais profunda, mais antiga. Tão antiga que nem sabia que o porquê ela o acompanhava. Apenas sua presença era constante, um parasita sugando seus planos e sonhos, impedindo-o de ser feliz, ou, ao menos, de tentar sê-lo.
Ao fracassar novamente, agora no relacionamento, a morte, sedutora e atraente, conversou com ele, ofereceu o conforto de seu abraço e a ausência de julgamentos. Eu sei que está cansado – cochichou ela – apenas feche os olhos e deixe-me cuidar de você, Tomi, tudo será resolvido. Ela o aceitaria não importa o quão se sentisse um fracassado, impotente ou infeliz, a morte estaria sempre ali com a mão estendida, aguardando-o com ar sereno e doce, desejando-o como nenhum ser humano pode desejar outro, com seus braços frios e afáveis, contrários aos quentes, mas incertos, corações humanos.  
Tomi olhou-a com o desconforto da cabeça mal voltada e seus pensamentos mal entendendo: eu morrerei. E morrer já não parecia tão triste quanto lhe parecera no passado. Acelerou o carro um pouco mais. 140 km/h. E a morte lhe sorriu. Mas ele não pensava mais no conforto que ela poderia lhe trazer, estranhamente, apenas lembrou-se: esquecera-se – ao menos acreditava que havia esquecido - de colocar ração para seu cachorro antes de viajar. E aquilo pareceu algo muito importante, mais importante que sua própria dor.
Nutrido, o cachorro, sequer era dele, pertencia à Natália. E Natália traíra Tomi várias e várias vezes. Mesmo assim, ele gostava do cachorro, era uma parte boa que merecia ser protegida antes do fim inevitável, trágico e até um pouco poético que a morte lhe oferecia. Enquanto dirigia olhou para ela e sorriu de volta:Depois nós conversaremos – respondeu.
Nutrido pulou em Tomi como sempre fazia ao vê-lo, marcando no peito da camisa suas patas com a lama do buraco em que trabalhava na ausência dos donos, mas Tomi sorriu feliz dentro dos limites que seu corpo permitia alguma felicidade. A roupa suja não faria mais diferença, apenas ficou feliz pela felicidade sincera de Nuti.
Tomi estava morto há mais de uma hora. Ao menos já tinha tomado sua decisão nesse tempo, precisava apenas se certificar que seu amigo ficaria bem na sua ausência e se entregaria aos braços da sua nova amiga. E os potes de ração estavam cheios para uma semana, mais que suficiente.
Sentou na varanda de casa, tirou a morte de seu bolso.
— Posso fumar um cigarro antes? – perguntou acariciando dedos frios da morte, mesmo sabendo que sua nova amiga, sempre tão presente, era a mais paciente de todos os seres. Esperaria a vida inteira para ter a alma de dele em seus braços.  
Acendeu o cigarro e tragou. Prendeu a fumaça em seus pulmões e sentiu a nicotina invadindo seu corpo. Abriu a boca e deixou a fumaça escapar lentamente. Pensou no quanto odiava seu tão prestigiado trabalho e sorriu por não precisar mais dele na próxima segunda.  Tragou mais um gole da fumaça e lembrou-se das coisas que fazia somente para agradar aqueles que o cercavam.
Como somos seres estúpidos, pensou ele.
Nutrido deitou-se aos pés de Tomi e começou a lamber as próprias partes íntimas.
— Você não se importa, não é? – Tomi riu – Dane-se o mundo desde que você possa lamber as próprias bolas. Mas tudo bem se você não sentir minha falta, eu o entendo. Espero que a Natália cuide bem de você. Você é um cachorro de sorte, sabia?
Acendeu outro cigarro na brasa do primeiro. Era bom pensar em suas obrigações estando morto. Tudo parecia tão mesquinho e sem sentido. Na última semana, quando seu chefe começou a gritar por causa de um relatório atrasado, deveria ter levantado e o abraçado: É só um relatório, chefe. Semana que vem estarei morto e não terá tanta importância. Talvez o senhor esteja morto, ainda mais se estressando tanto por tão pouco. E depois dado um beijo em sua face. Seria engraçado. Então, pediria demissão e viveria a última semana fazendo algo legal, escreveria um livro, talvez.
Um carteiro apareceu no portão e começou a separar correspondências para pô-las na caixa de correio.
— Você não vai lá latir, Nutrido? – perguntou ao cachorro que ignorou tanto o carteiro quanto a pergunta – Sempre quis latir para um carteiro, só para saber a sensação. Por que você não faz isso? Deve ser libertador.
E Tomi voltou seu olhar para o carteiro distraio. E depois para o cachorro novamente, e para o carteiro novamente.
Apagou o cigarro. Levantou-se delicado com um felino caçando e pôs-se a correr em direção ao portão, meio arcado, esganindo um som latido como se fosse um cachorro. Nutrido assustou-se e observou com a cabeça levemente inclinada e orelhas em pé. Levantou-se atrapalhado, deslizando no piso escorregadio e correu junto com Tomi latindo ferozmente contra o invasor.
O carteiro paralisou-se com a cena. Incrédulo. Olhos arregalados e a boca entreaberta. Assustado, segurou firme o guidão da bicicleta abandonando as correspondências no chão e fugiu, xingando e amaldiçoando com palavras inventadas para expressar sua raiva, medo e surpresa.
Filho da puta desgraçado, foi a única coisa coerente que Tomi entendeu.
Quando chegaram ao portão, o carteiro já tinha partido, e Tomi abraçou vitorioso, Nutrido.
Comemoraram a vitória correndo de volta para a varanda.
— Somos uma dupla e tanto, não? – comentou orgulhoso – deveríamos fazer isso mais vezes – e afagou a cabeça do cachorro.
Nutrido latiu em resposta como quem concorda e entende.
Pegou uma cerveja na geladeira e sentou-se novamente com outro cigarro acesso.
— Por que eu nunca fiz isso? – conversava com a morte novamente.
Ele sabia: Já estava morto. Ninguém julga um morto, e se perderem tempo em julgar, já não faz diferença. Pensou no emprego e em tudo o que fizera para manter sua aparência de cidadão normal. Riu da própria insanidade. Pela primeira vez na vida, se sentiu bem. Apenas aceitou seu destino e sua loucura sem medo do que os outros diriam. 
— Eu tenho algo a fazer, minha amiga – disse Tomi à morte – conversaremos amanhã ou talvez na semana que vem ou daqui a alguns minutos, não importada, eu sei que você estará de braços abertos pra mim, mas antes, preciso viver um pouco.
Tomi morreu há três anos.
Quando seus pensamentos se perdem longe dos seus sonhos, ele tira sua amiga do bolso e eles conversam. 
— Já estou morto, minha amiga.  Logo minha alma aos seus braços, mas, antes, preciso fazer algo... – e, com todo amor, cuidado e carinho de uma relação longa e duradoura, guarda-a novamente.


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