segunda-feira, 3 de junho de 2013

LÁGRIMAS DE CHUMBO




Fragmentos - O soldadinho de Chumbo e a Bailarina.


"Todos os soldados se pareciam exatamente uns com os outros, exceto um, que não possuía uma perna, porque o tinham posto na fôrma em último lugar, e já não havia chumbo suficiente." Apesar deste defeito, os outros não se firmavam melhor em duas pernas do que ele na sua única.
Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia outros brinquedos; mas o mais bonito de todos era um lindíssimo castelo de cartolina. Tudo era encantador, mas não tanto como uma menina à porta, e  que era também de cartolina, com um lindo vestido de cassa, apertado por um cinto de fivela azul. A menina apresentava os braços arqueados, porque era dançarina, e uma  perninha  levantada a tal altura que o soldado de chumbo não a podia ver, e imaginou que, como ele, não teria senão uma perna.
"Ali está a mulher que me convém", pensou, "mas é uma grande fidalga, mora num palácio, eu em uma caixa em companhia de vinte e quatro camaradas; e aqui  não haveria lugar para ela. No entanto, preciso conhecê-la."
Os únicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a dançarinazinha - ela no bico do pé, ele numa perna só, a espreitá-la.
Deu meia-noite, e zás! a tampa da caixa de charutos levanta-se, e saiu um feiticeirozinho vestido de preto. Enciumado, ele viu como o soldadinho olhava embevecido para a dançarina.
- "Soldadinho de chumbo", disse o feiticeiro, "trata de olhar para outro lado. "Mas o soldado fez que não ouvia.
No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado de chumbo à janela; mas, de repente, ou por influência do feiticeiro ou por causa do vento, caiu à rua de cabeça para baixo.
A chuva começou a cair em torrentes, e transformou-se em verdadeiro dilúvio.
Depois do aguaceiro passaram dois garotos.- "Olá!", disse um deles, "um soldadinho de chumbo por aqui! Vamos fazê-lo navegar."
Construíram um barco com um pedaço de jornal velho, meteram o soldado de chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. O barco lançou-se sobre a queda d'água, e o pobre soldado firmava-se o mais possível, e ninguém se atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com medo.
Nesse momento supremo, pensou na gentil dançarina, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia: - "Soldado, o perigo é enorme, a morte espera-te."O papel rasgou-se, e o soldado passou através dele. Nesse momento foi devorado por um grande peixe.
Após todo o ocorrido, o peixe foi pescado, exposto na feira, vendido, levado para a cozinha, e a cozinheira abriu-o com uma enorme faca. Pegou no soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda gente quis admirar esse homenzinho extraordinário, que tinha viajado na barriga de um peixe. Entretanto, o soldado não se sentia orgulhoso. Colocaram-no em cima da mesa, e ali - tanto é verdade que acontecem coisas extraordinárias neste mundo - achou-se na mesma sala, de cuja janela havia caído. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam em cima da mesa, o lindo palácio, e a adorável dançarina sempre de perna no ar.
O soldadinho de chumbo ficou tão comovido, que de boa vontade teria derramado lágrimas de chumbo; mas isso não seria decente. Olhou para ela, ela olhou para ele, mas não disseram uma palavra ao outro.
De repente, um dos pequenos pegou nele e, sem motivo algum, atirou-o no fogo; eram obras do feiticeiro da caixa de charutos. O soldadinho de chumbo lá estava perfilado, iluminado por um clarão sinistro, e sofrendo um calor terrível. Todas as cores lhe tinham desaparecido, sem que se pudesse dizer se era por causa de suas viagens, ou por causa de seus desgostos. Continuava a olhar para a dançarina, que também olhava para ele. Sentia-se derreter, mas, sempre corajoso, conservava a espingarda ao ombro na atitude marcial. De repente, abriu-se uma porta e um golpe de vento arremessou a dançarina ao fogo, para junto do soldado, que apareceu no meio das labaredas. O soldadinho de chumbo não era mais que uma pequena massa informe. 
No dia seguinte, quando a criada veio limpar a lareira, ficou espantada ao encontrar um pequeno coração de chumbo com uma fivelinha azul."

 Hans Christian Andersen
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