segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O Pássaro




Era uma vez um pássaro. 
Adornado com um par de asas perfeitas e plumas reluzentes, 
coloridas e maravilhosas. 
Enfim, um animal feito para voar livre e solto no céu, e alegrar quem o observasse.


Um dia, uma mulher viu o pássaro e apaixonou-se por ele.
 Ficou a olhar o seu voo com a boca aberta de espanto, o coração batendo mais rapidamente, 
os olhos brilhando de emoção. 
Convidou-o para voar com ela, e os dois viajaram pelo céu em plena harmonia. 
Ela admirava, venerava, celebrava o pássaro.

Mas então pensou: talvez ele queira conhecer algumas montanhas distantes! 
E a mulher sentiu medo.
 Medo de nunca mais sentir aquilo por outro pássaro. 
E sentiu inveja, inveja da capacidade de voar do pássaro.

E sentiu-se sozinha.

E pensou : "Vou montar uma armadilha. 
Da próxima vez que o pássaro surgir, ele não partirá mais."

O pássaro, que também estava apaixonado, voltou no dia seguinte, 
caiu na armadilha, 
e foi preso na gaiola.

Todos os dias ela olhava o pássaro. 
Ali estava o objecto da sua paixão, e ela

mostrava-o às suas amigas, que comentavam:
 "Mas tu és uma pessoa que tem tudo."

Entretanto, uma estranha transformação começou a processar-se: 
como tinha o pássaro, e já não precisava de o conquistar, foi perdendo o interesse. 
O pássaro, sem poder voar e exprimir o sentido da sua vida, foi definhando,
 perdendo o brilho, ficou feio - e a mulher já não lhe prestava atenção, 
apenas prestava atenção à maneira como o alimentava e como cuidava da sua gaiola.

Um belo dia, o pássaro morreu.
 Ela ficou profundamente triste, e passava a vida a pensar nele.
 Mas não se lembrava da gaiola,
 recordava apenas o dia em que o vira pela primeira vez, 
voando contente entre as nuvens.

Se ela se observasse a si mesma, 
descobriria que aquilo que a emocionava tanto no pássaro era a sua liberdade,
 a energia das asas em movimento, 
não o seu corpo físico.

Sem o pássaro, a sua vida também perdera o sentido, 
e a morte veio bater à sua porta.
 "Porque vieste?" perguntou à morte.

" Para que possas voar de novo com ele nos céus", respondeu a morte. 
"Se o tivesses deixado partir e voltar sempre, amá-lo-ias e admirá-lo-ias ainda mais; porém, agora precisas de mim para poderes encontrá-lo de novo."


Onze Minutos - Paulo Coelho




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